sexta-feira, 22 de junho de 2012

Pés no Chão




Percebo que muito do que faço ou penso tem mais a ver com a projeção do que eu quero do que com a realidade e o contexto em que vivo. Neste sentido, estou muitas vezes vivendo muito mais um “futuro” do que o presente. E viver um “futuro” é não viver, é não-ser, porque o futuro não existe, ele é apenas possibilidade. E se é “não-ser”, tenho então um problema ontológico (estudo do ser). O futuro é fé, é mito, é imaginação, é ilusão.

Penso que devo tentar caminhar um pouco mais dentro do meu presente. Acho que isso é ser mais “pé no chão”. É como numa viagem. Ao invés de ficar de mau humor porque demora a chegar no destino, tentar aproveitar a paisagem, a viagem em si. A chegada ao destino é "lucro", e quando chegar, aí sim será um presente. Um futuro, que se torna presente.

Por outro lado, é o futuro que nos move em direção a, que nos motiva a fazer a caminhada. Mas é bom prestar mais atenção no que está nesse caminho, porque talvez podemos parar um pouco mais para contemplar a beleza do chão que estou pisando, a melhoria que posso fazer se ele não for tão belo. Mas melhorar já é uma expectativa de depois: agora está assim, mas pode ficar melhor depois que eu fizer... E se é depois, já futuro.

Então temos aqui a ambiguidade do tempo. Aliás, o tempo. Será que ele existe? O tempo não é só o presente? Porque o tempo que já foi é não-ser, e o tempo que virá é ainda não-ser. Ou seja não existem, porque ou já existiu ou ainda vai existir. Mas os povos da antiguidade lidavam bem com a ambiguidade, para eles não existia essa ideia de progressão do tempo. Essa ideia teleológica (um grande final no futuro). Era cíclico, tudo retorna, tudo acontece de novo. Para eles o passado era sempre presente e no futuro retornariam ao passado. Ou seja, o tempo é uma belíssima ilusão. Talvez esse seja o sentido de eternidade, de vida eterna: o tempo não com três estágios, mas apenas um: o presente, o estar vivendo e estar-sendo.

Concluo que se por um lado sou movido a seguir adiante por causa de esperanças e projeções futuras, não posso deixar de sentir e viver o momento presente na realidade e contexto que estou. É bom manter os pés no chão, às vezes parados, as vezes caminhando...

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