Percebo que muito do que faço ou
penso tem mais a ver com a projeção do que eu quero do que com a realidade e o
contexto em que vivo. Neste sentido, estou muitas vezes vivendo muito mais um “futuro” do
que o presente. E viver um “futuro” é não viver, é não-ser, porque o futuro não
existe, ele é apenas possibilidade. E se é “não-ser”, tenho então um problema
ontológico (estudo do ser). O futuro é fé, é mito, é imaginação, é ilusão.
Penso que devo tentar caminhar um
pouco mais dentro do meu presente. Acho que isso é ser mais “pé no chão”. É
como numa viagem. Ao invés de ficar de mau humor porque demora a chegar no
destino, tentar aproveitar a paisagem, a viagem em si. A chegada ao destino é "lucro", e quando chegar, aí sim será um presente. Um futuro, que se torna
presente.
Por outro lado, é o futuro que
nos move em direção a, que nos motiva a fazer a caminhada. Mas é bom prestar
mais atenção no que está nesse caminho, porque talvez podemos parar um pouco
mais para contemplar a beleza do chão que estou pisando, a melhoria que posso
fazer se ele não for tão belo. Mas melhorar já é uma expectativa de depois:
agora está assim, mas pode ficar melhor depois que eu fizer... E se é depois,
já futuro.
Então temos aqui a ambiguidade do
tempo. Aliás, o tempo. Será que ele existe? O tempo não é só o presente? Porque
o tempo que já foi é não-ser, e o tempo que virá é ainda não-ser. Ou seja não
existem, porque ou já existiu ou ainda vai existir. Mas os povos da antiguidade
lidavam bem com a ambiguidade, para eles não existia essa ideia de progressão
do tempo. Essa ideia teleológica (um grande final no futuro). Era cíclico, tudo
retorna, tudo acontece de novo. Para eles o passado era sempre presente e no
futuro retornariam ao passado. Ou seja, o tempo é uma belíssima ilusão. Talvez
esse seja o sentido de eternidade, de vida eterna: o tempo não com três
estágios, mas apenas um: o presente, o estar vivendo e estar-sendo.
Concluo que se por um lado sou
movido a seguir adiante por causa de esperanças e projeções futuras, não posso
deixar de sentir e viver o momento presente na realidade e contexto que estou.
É bom manter os pés no chão, às vezes parados, as vezes caminhando...


